Dor e saudade
Nas veias do tempo, escorre a dor,
Um rio sem leito, frio e sem cor.
A saudade é sombra que habita o peito,
Raiz de espinho em jardim desfeito.
Cada suspiro traz o agudo punhal
De um verso lembrado, de um amor que é mortal.
As lágrimas secam, mas a ferida persiste—
Flor do ausente que o vento não viste.
O passado é vento que corta a pele,
Riso extinto na névoa do crepúsculo frágil.
As horas se arrastam, mas o relógio parou
No instante em que seu nome meu chão abandonou.
A lua testemunha o vazio do leito,
O corpo é casa sem teto, sem teto nem jeito.
A voz que ecoa nos cômodos vazios
É fantasma de abraços, de antigos desafios.
Saudade é melodia sem viola nem verso,
Dor é tatuagem de um fogo inverso.
O adeus que não finda, que se enrosca no ar,
É a cicatriz que me lembra onde doí mais amar.
Mas na noite sem fim, quando a alma se encurva,
Aprendo que a dor é a semente da curva
Que transforma o pranto em estrela cadente:
Saudade, irmã da alma, sorri tristemente.
Ana Pujol